Trabalhadores por conta própria com CNPJ atingem recorde, mas ainda são menos de 30% no Brasil

O número de trabalhadores por conta própria com registro no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) alcançou o maior nível da série histórica, mas ainda representa menos de 30% do total de brasileiros que atuam nessa modalidade. Os dados mais recentes do mercado de trabalho mostram que a formalização avançou, embora continue limitada entre os trabalhadores autônomos.

De acordo com informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem mais de 25 milhões de pessoas trabalhando por conta própria. Desse grupo, cerca de 7 milhões possuem CNPJ, o que corresponde a aproximadamente 29% do total.

O resultado representa um recorde em números absolutos. A expansão ocorre em um contexto de crescimento do empreendedorismo e de aumento da quantidade de pessoas que passaram a trabalhar por conta própria após mudanças no mercado de trabalho e períodos de desemprego.

Apesar do avanço, a maioria dos autônomos ainda atua sem registro empresarial. Essa condição pode dificultar o acesso a crédito, a serviços financeiros, a contratos com empresas e ao sistema de proteção previdenciária. Também reduz a possibilidade de participação em compras públicas e em cadeias formais de fornecimento.

O CNPJ, no entanto, não significa necessariamente que o trabalhador tenha uma empresa estruturada ou empregados. Em muitos casos, o registro é utilizado por microempreendedores individuais, os chamados MEIs, que trabalham sozinhos e têm faturamento limitado pelas regras do regime simplificado.

A formalização como MEI permite a emissão de notas fiscais, o acesso a benefícios previdenciários mediante pagamento mensal e a abertura de conta empresarial. Em contrapartida, o trabalhador precisa cumprir obrigações como o pagamento do Documento de Arrecadação do Simples Nacional e a entrega da declaração anual de faturamento.

Especialistas e entidades de apoio aos pequenos negócios apontam que o custo, a burocracia e a instabilidade da renda estão entre os fatores que dificultam a formalização. Muitos trabalhadores também permanecem fora do registro por exercerem atividades de baixa remuneração ou por não terem previsibilidade suficiente para assumir despesas fixas.

A existência de CNPJ tampouco elimina a informalidade. Um trabalhador pode ter registro empresarial, mas não emitir notas fiscais regularmente, não contribuir de maneira contínua para a Previdência ou não cumprir todas as obrigações tributárias. Por isso, os indicadores de formalização devem ser analisados em conjunto com dados sobre contribuição previdenciária, rendimento e acesso a direitos.

O avanço do número de autônomos registrados é considerado um sinal de maior inserção dos pequenos negócios na economia formal. Ainda assim, a proporção inferior a 30% revela que o trabalho por conta própria continua marcado pela precariedade e pela ausência de garantias semelhantes às existentes para empregados com carteira assinada.

Para ampliar a formalização, órgãos públicos têm adotado medidas como a simplificação do registro, a divulgação do MEI e a oferta de crédito e capacitação. O desafio, porém, é fazer com que o registro seja acompanhado de condições para a permanência do negócio, com aumento de produtividade, renda e proteção social.

Os dados do IBGE indicam, portanto, um movimento duplo no mercado de trabalho brasileiro: de um lado, cresce o número de trabalhadores autônomos que buscam o CNPJ; de outro, a maior parte desse contingente continua sem registro. O recorde reforça a expansão do empreendedorismo, mas a taxa de formalização mostra que o fenômeno ainda está distante de alcançar a maioria dos trabalhadores por conta própria.

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