
O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu aos 95 anos. Reconhecido por uma trajetória de mais de seis décadas na imprensa brasileira, ele também se destacou como autor de livros que ajudaram a interpretar períodos importantes da história recente do país.
Ao longo da carreira, Ventura trabalhou em alguns dos principais veículos de comunicação do Brasil. Passou por jornais e revistas como Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Veja, IstoÉ e O Globo, onde manteve uma atuação ligada à reportagem, à análise política e aos temas sociais.
Uma de suas obras mais conhecidas é “1968: O ano que não terminou”, publicada originalmente em 1988. O livro reconstitui o ambiente político e cultural do ano marcado pelo endurecimento da ditadura militar brasileira após a edição do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968. A obra também aborda a participação de estudantes, artistas e intelectuais nos movimentos de contestação daquele período.
O trabalho tornou-se uma referência para o estudo da sociedade brasileira durante a ditadura e consolidou o nome de Zuenir Ventura entre os principais jornalistas-escritores do país. O livro recebeu o Prêmio Jabuti e continuou a ser reeditado ao longo das décadas.
Outro título de destaque foi “Cidade partida”, lançado em 1994. A obra trata das desigualdades sociais e da violência no Rio de Janeiro, a partir de uma investigação sobre as relações entre diferentes grupos e territórios da cidade. O livro ampliou o debate sobre exclusão social, segurança pública e convivência urbana.
Ventura também escreveu “Chico Mendes: crime e castigo”, resultado de uma investigação sobre o assassinato do líder seringueiro e ambientalista, ocorrido em 1988, no Acre. A publicação examinou as circunstâncias do crime e suas consequências políticas e sociais.
Além da produção jornalística e literária, Zuenir Ventura integrou a Academia Brasileira de Letras. Ele foi eleito para a cadeira número 32, sucedendo o escritor Ariano Suassuna, e tomou posse em 2015. A instituição reúne nomes de destaque da literatura e da cultura brasileiras.
Em seus textos, o jornalista combinava observação do cotidiano, pesquisa histórica e análise dos conflitos sociais. Sua escrita se caracterizava pela tentativa de aproximar acontecimentos políticos e questões nacionais da experiência concreta dos cidadãos.
A morte de Zuenir Ventura encerra uma trajetória associada à memória da imprensa brasileira e ao registro de transformações políticas, culturais e sociais do país. Seus livros e reportagens permanecem como fontes de reflexão sobre a ditadura militar, a desigualdade urbana, a violência e os desafios da democracia brasileira.