
A produção industrial brasileira recuou 0,2% na passagem de abril para maio de 2024, marcando a primeira queda desde março de 2025, segundo dados preliminares do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgados na última semana. A retração interrompe uma sequência de 14 meses consecutivos de expansão, registrando a menor variação mensal desde o início da série histórica iniciada em 1995.
O setor de manufatura foi o principal responsável pela redução, com queda de 0,3%. Setores como metalurgia (1,1% de recuo) e produtos químicos (0,8%) apresentaram desempenho negativo, enquanto o segmento de alimentos manteve estabilidade. A análise do IPEA destaca que fatores como aumento dos custos energéticos e desaceleração das exportações impactaram negativamente a atividade industrial.
Apesar da contração mensal, o índice acumulado no ano (1,2%) e a variação em 12 meses (4,8%) ainda apontam para expansão do setor. Entretanto, economistas alertam para riscos no médio prazo, especialmente diante da volatilidade cambial e dos efeitos da redução do PIB global.
O Ministério da Economia destacou, em nota oficial, que as medidas de estímulo à inovação e à modernização do parque industrial estarão centradas na agenda de governo nos próximos meses. “A indústria brasileira demonstra resiliência, mas é necessário intensificar políticas de suporte ao setor para mitigar os impactos externos”, afirmou o ministro Paulo Guedes.
As perspectivas para junho são cautelosas, com expectativa de estabilização da produção, segundo pesquisa do Banco Central. A confiança do empresário industrial, medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), permaneceu em 72,6 pontos em maio, acima da média histórica (70 pontos), mas com leve queda em comparação ao mês anterior.
A retração ocorre em um cenário de disputa por matérias-primas no mercado internacional, com pressão sobre commodities como soja e minério de ferro. “A dependência do setor exportador para impulsionar a indústria amplia a vulnerabilidade a choques externos”, avalia a economista-chefe do IPEA, Maria Eduarda Ribeiro.
O setor automotivo, tradicionalmente um dos pilares da indústria brasileira, registrou queda de 0,5% em maio, influenciado pela redução na demanda por veículos elétricos e pela alta nos preços dos componentes eletrônicos importados. Juntos, automóveis, metalúrgicos e produtos químicos representam 30% do PIB industrial do país.
Enquanto o setor tradicional enfrenta desafios, empresas de tecnologia e inovação destacam-se como nova locomotiva para o crescimento. Startups de inteligência artificial e indústria 4.0 reportam aumento de 8% em investimentos, segundo a Associação Brasileira de Inovação (ABI). “O futuro da indústria brasileira depende da capacidade de modernizar processos e reduzir custos operacionais”, aponta o presidente da ABI, Luís Fernando Franco.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) prevê que os dados finais do IPEA, a serem divulgados em junho, confirmem a tendência de estagnação em setores-chave. A variação do PIB industrial no trimestre mar-abr-mai/2024 foi de 0,4%, abaixo da projeção de 0,8% registrada no trimestre anterior.
Com 42% da força de trabalho brasileira atuando no segmento industrial, a retração gera preocupações sobre o mercado de trabalho. A taxa de desemprego no setor atingiu 8,4% em maio, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED). “É fundamental que o governo e o setor privado trabalhem em parceria para qualificar a mão de obra e atrair novos investimentos”, destacou o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade.