
A Polícia Federal (PF) iniciou uma investigação para apurar se os maiores bancos privados do Brasil — Itaú Unibanco, Bradesco e Santander — teriam participado ativamente de um esquema para ocultar uma dívida bilionária da Americanas, empresa controlada pelo grupo GPA. A operação, denominada “Americanas 2.0”, busca identificar possíveis irregularidades na relação entre as instituições financeiras e a varejista, que enfrenta uma crise financeira desde 2022 após a venda de seu controle acionário para a varejista norte-americana Walmart.
Segundo informações preliminares divulgadas pela PF, investigadores apuram a possibilidade de que os bancos tenham facilitado a Americanas o acesso a linhas de crédito e operações financeiras que, segundo a promotoria, “serviram para mascarar a gravidade do passivo da empresa”. A dívida da Americanas, que atualmente ultrapassa R$ 25 bilhões, teria sido amplamente subnoticiada no mercado graças a relatórios e garantias emitidos por essas instituições, segundo fontes do inquérito.
O caso ganhou relevância após a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) entre a Americanas, os bancos e o Ministério Público Estadual em 2023. O documento, que previa a redução da dívida da varejista em troca de mudanças na gestão, foi questionado por especialistas em direito financeiro por conter cláusulas que, segundo a PF, “limitam a transparência das operações”.
Apesar das denúncias, as instituições financeiras negaram qualquer envolvimento em atos ilícitos. Em nota, o Itaú Unibanco afirmou que “toda a relação comercial com a Americanas foi realizada dentro dos parâmetros legais e regulatórios”. O Bradesco e o Santander também reiteraram que “respeitam todas as normas de governança e cooperam com as autoridades em investigações”.
A investigação da PF ocorre em um momento de crescente escrutínio sobre práticas de grandes bancos brasileiros, especialmente após a crise de 2023 que afetou diversas empresas do setor varejista. Advogados de defesa dos bancos argumentam que as operações analisadas são comuns no mercado financeiro e que “não há evidências de que as instituições tenham agido com dolo”.
Para especialistas, a operação da PF pode ter implicações significativas para o sistema financeiro brasileiro. “Se confirmada a participação dos bancos em esquemas de ocultação de dívidas, isso revelaria uma falha grave no controle de riscos e na governança corporativa”, afirma o economista Leonardo Ferreira, da Universidade de São Paulo. “A sociedade merece um esclarecimento sobre como isso foi possível”, acrescenta.
A investigação está sob a coordenação do Departamento de Combate ao Crime Organizado da PF, com apoio do Ministério Público Federal. Até o momento, não há pedidos de prisões preventivas ou bloqueios de bens. A conclusão do inquérito pode ocorrer em até 180 dias, conforme prevê a legislação brasileira.
A Americanas, por meio de comunicado, afirmou que “cooperará com as investigações e está confiante na conclusão de que nenhuma irregularidade foi cometida por sua parte”. A empresa reforçou que “as operações financeiras são comuns no setor e que a dívida não foi ocultada, mas gerida com o objetivo de assegurar a continuidade da operação”.
Com a investigação em andamento, o caso se soma a uma série de operações recentes da PF contra grandes corporações brasileiras, refletindo uma tendência de maior fiscalização de práticas que possam comprometer a economia. O setor financeiro, por sua vez, alerta para o impacto da investigação nas relações entre bancos e clientes, especialmente em um contexto de alta volatilidade no mercado.