ANTT troca contrato alvo da PF por outro mais caro e beneficia mesmo grupo investigado

No contexto de uma operação da Polícia Federal (PF) que investiga práticas de corrupção na Administração Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), foi revelado que a autarquia substituiu um contrato alvo das investigações por outro com custo significativamente maior, beneficiando o mesmo grupo empresarial investigado. A mudança ocorreu após pressões de setores aliados ao grupo e sem justificativa técnica plausível, conforme apurado por fontes oficiais.

O contrato original, no valor de R$ 12 milhões, foi celebrado em 2021 para a prestação de serviços de modernização da infraestrutura de sinalização em rodovias federais. A PF, em fase de análise de documentos, identificou contrapartidas indevidas ligadas à empresa vencedora, que já possui histórico de processos administrativos por irregularidades. Em abril de 2024, após a abertura da operação, a ANTT cancelou o contrato e reabriu licitação, resultando em um novo contrato de R$ 18 milhões, novamente atribuído à mesma empresa.

Segundo nota divulgada pela ANTT, a nova proposta apresentou “melhores condições técnicas e viabilidade financeira”. Entretanto, especialistas em gestão pública destacam que a diferença de custo (50% superior) não foi acompanhada por alterações substanciais no escopo do projeto. “Essa prática é um exemplo típico de suborno reverso: o grupo investigado paga um ‘preço de proteção’ para manter seus interesses, mesmo sob investigação”, afirma o professor de Direito Administrativo Carlos Mendes.

A PF solicitou à Procuradoria Geral da República a abertura de inquérito para apurar eventuais delitos de corrupção passiva e influência indevida no processo licitatório. O Ministério Público Federal (MPF) também acompanha o caso, cobrando transparência na gestão de recursos públicos. Em reunião realizada em 10 de julho de 2024, o Conselho de Administração da ANTT foi instado a justificar a decisão diante da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Reforma Administrativa.

O grupo empresarial investigado, cujo nome foi suprimido nos autos, é acusado de desvios em contratos de serviços similares em outras regiões do país. Em um processo judicial paralelo, a empresa enfrenta multa de R$ 5 milhões por descumprimento de cláusulas contratuais. Advocados da empresa negam irregularidades e afirmam que as investigações são politicamente motivadas. “A licitação foi feita conforme a legislação vigente, e todos os recursos foram aplicados conforme o plano de trabalho”, disse o advogado do grupo, Marcelo Freitas.

O caso reacende debates sobre a necessidade de fortalecer mecanismos de fiscalização em contratos de grandes valores. Organizações de direitos humanos e movimentos sociais exigem a prisão preventiva dos responsáveis por práticas de corrupção. “Cada real desviado em contratos públicos é um real que não chega ao cidadão”, afirma a presidente da ONG Transparência Brasil, Ana Lúcia Ribeiro.

Enquanto a Justiça Federal analisa o processo, a ANTT comunicou que está revisando seu manual de licitações para incluir critérios de sustentabilidade e transparência. A nova política, prevista para vigorar em janeiro de 2025, exigirá a publicação de relatórios trimestrais sobre o andamento dos contratos. A PF, por sua vez, ampliou o número de equipes dedicadas à operação, com foco em identificar outros possíveis beneficiários de práticas ilegais.

Com a divulgação do caso, o Ministério da Infraestrutura instaurou audiência pública para debater o impacto da corrupção em projetos de desenvolvimento. A sessão, marcada para 15 de agosto, contará com a participação de representantes da sociedade civil e do setor empresarial. Enquanto isso, a população segue mobilizada nas redes sociais, exigindo ações enérgicas contra a má administração de recursos públicos.

Este episódio ilustra a complexidade do combate à corrupção em instituições estatais,

↑
Sair da versão mobile