
No dia 15 de março, a Polícia Federal (PF) iniciou uma ampla operação de investigação contra o grupo Digimais, banco de propriedade do bispo Edir Macedo, presidente da Igreja Universal do Reino de Deus. A ação, que faz parte de uma investigação aberta em 2021, resultou no bloqueio de R$ 670 milhões em ativos da instituição, incluindo contas corporativas, imóveis e veículos.
Segundo informações divulgadas pela PF, a operação visa apurar suspeitas de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e emissão de títulos de longo prazo sem autorização legal. As investigações apontam para uma estrutura financeira complexa, com recursos supostamente desviados de campanhas publicitárias e outras atividades do grupo empresarial vinculadas à igreja.
O bispo Edir Macedo, que também é o fundador do SBT, não se manifestou publicamente até o momento. Em nota oficial, o grupo Digimais afirmou que “não há irregularidades em suas operações financeiras” e destacou que “as investigações estão sendo conduzidas de forma técnica e isenta pela Justiça”. A instituição informou que “irá colaborar com as autoridades para esclarecer quaisquer dúvidas”.
A operação da PF contou com a participação de mais de 50 agentes, que realizaram buscas em escritórios, residências e depósitos em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Foram apreendidos documentos, equipamentos eletrônicos e gravações que servirão como provas no processo judicial. A investigação está sendo coordenada pela Procuradoria Regional da República da 2ª Região.
Advogados de defesa do grupo Digimais já protocolaram um habeas corpus coletivo para questionar as medidas coercitivas adotadas pela PF. O juiz responsável pelo caso, Alexandre Lopes de Oliveira, determinou que o bloqueio de bens seja mantido “até que se esclareça a natureza dos recursos envolvidos”.
Essa é a segunda grande ação judicial envolvendo a Igreja Universal nos últimos anos. Em 2020, a Receita Federal bloqueou R$ 500 milhões em contas bancárias do grupo, relacionadas a supostos desvios de recursos de programas sociais. A atual operação da PF reforça a pressão sobre organizações religiosas com ativos multimilionários no país.
O Ministério Público Federal (MPF) informou que “a análise dos fatos está em andamento e não há previsão de conclusão do processo”. Enquanto isso, o grupo Digimais segue operando normalmente, com cerca de 2,5 mil funcionários e uma carteira de R$ 15 bilhões em títulos de longo prazo emitidos ao público. O banco atua principalmente no segmento de crédito direto ao consumidor.
A operação gerou debates entre especialistas sobre o papel do Estado na fiscalização de organizações religiosas com influência econômica significativa. O presidente da Associação Brasileira de Direito Financeiro (ABDF), João Carlos Sampaio, afirmou à BBC Brasil que “cada caso deve ser julgado com base em provas concretas, sem perseguição ideológica”. Já o deputado federal Flávio Dino (PCdoB), crítico da Igreja Universal, chamou o bloqueio de “medida necessária para combater a impunidade financeira”.
Enquanto a investigação avança, o grupo Digimais mantém sua base de clientes fiéis, que acreditam na solidez da instituição financeira. A operação da PF, no entanto, eleva a expectativa de uma eventual ação penal ou acordos de leniência que possam alterar o cenário do mercado financeiro nacional.
