
No domingo, 23 de março, o centro do Rio de Janeiro foi cenário de uma das maiores mobilizações LGBTQIA+ do Brasil, com centenas de milhares de pessoas marchando em defesa de mais representatividade no Legislativo federal. A “Marcha da Dignidade”, como é conhecida a parada, reuniu manifestantes de diversas faixas etárias e orientações sexuais que exigiram a implementação da cota de 2% para candidatos LGBTQIA+ em eleições legislativas, estabelecida pela Emenda Constitucional 121 de 2019.
Segundo a organização do evento, estimado em cerca de 50 mil pessoas, o lema central foi “Visibilidade é Poder”. A concentração, iniciada no Largo da Carioca, seguiu até a Praça da República, com faixas e cartazes destacando demandas como a aprovação do Estatuto da Diversidade e a criminalização da transfobia. Participantes vestiam roupas coloridas e usavam adesivos com a hashtag “#Representatividade”.
A Emenda Constitucional 121, sancionada em 2019, determina que pelo menos 2% das vagas nas listas de candidatos a cargos legislativos sejam ocupadas por pessoas LGBTQIA+. Atualmente, o Congresso Nacional conta com 35 deputados e senadores identificados como integrantes da comunidade, abaixo do percentual proposto. Organizadores alertaram que, mesmo com a existência da cota, a regra não é cumprida em cerca de 60% das legendas políticas.
“A falta de representatividade nos debates legislativos limita a construção de políticas públicas efetivas para nossa comunidade. Nossa luta é por espaço nas assembleias estaduais e no Congresso”, afirmou João Reis, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Direitos Humanos (GAEDH). Durante o percurso, manifestantes cantaram versões adaptadas de músicas famosas, como “Vai Ter Que Sufocar”, da banda Capital Inicial, substituindo a letra para destacar a luta por direitos.
A marcha contou com a presença de políticos aliados à causa, incluindo vereadores e deputados estaduais. O deputado federal Pedro Henrique, líder da bancada LGBTQIA+, destacou avanços recentes: “Em 2024, já aprovamos projetos que ampliam a proteção contra discriminação em ambientes de trabalho e escolares. Mas precisamos de mais parlamentares para garantir a aprovação da nova lei de proteção contra violência homofóbica.”
Segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), apenas 32 partidos políticos brasileiros incluíram candidatos LGBTQIA+ na cota mínima nas eleições de 2022. O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos não respondeu a solicitações de comentário sobre o tema. Organizações como o Grupo Gay da Bahia e a Anis — Instituto de Gênero e Direitos Humanos monitoram a aplicação da emenda.
A manifestação ocorreu em um contexto de polarização política no país. Enquanto setores progressistas comemoram os avanços, grupos conservadores criticam a “ideologia de gênero” e a cota legislativa. A marcha encerrou com um ato simbólico no Museu do Amanhã, onde foi instalada uma exposição itinerante sobre a trajetória histórica da luta LGBTQIA+ no Brasil.
Organizadores anunciaram que a próxima edição da marcha está marcada para 2025, com novas demandas que incluem a aprovação de leis específicas para enfrentar a violência contra travestis e transexuais, que, segundo o Atlas da Violência (2023), atinge um índice cinco vezes maior que a média da população geral.
