
No próximo mês, cinco capitais brasileiras — São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre — iniciarão um censo específico para mapear a população em situação de rua. A iniciativa, anunciada pelo Ministério da Cidadania em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), busca coletar dados detalhados sobre as condições de vida, acesso a serviços básicos e vulnerabilidades sociais desses grupos.
O trabalho, previsto para durar 30 dias, envolverá equipes de pesquisadores e assistentes sociais que visitarão locais como praças, abrigos e vias públicas para entrevistar e registrar informações. Entre os critérios analisados estão idade, origem, saúde, educação e histórico de interações com programas sociais. O foco será em reunir dados que permitam a elaboração de políticas públicas mais eficazes.
Segundo o governo federal, a iniciativa busca corrigir lacunas nas estatísticas sobre a população em situação de rua, que até então eram obtidas apenas em censos demográficos gerais. “A ausência de dados específicos tornava difícil planejar ações pontuais”, explicou o ministro da Cidadania, em nota oficial. “Com essa pesquisa, teremos uma base técnica sólida para atender às necessidades dessas pessoas.”
Apesar do caráter inédito da ação, especialistas alertam para os desafios do levantamento. Dentre os obstáculos, a relutância de parte da população em participar das entrevistas — muitas vezes motivada por traumas ou desconfiança em instituições públicas — e a dificuldade de identificar todos os grupos, que tendem a se deslocar entre cidades. Organizações da sociedade civil, como a Pastoral do Menor e a Associação Nacional de Assistência Social, colaborarão com o trabalho de sensibilização.
Os resultados do censo, previstos para serem divulgados em novembro, servirão de base para a ampliação de programas como o “Minha Casa Minha Vida” e o acesso a serviços de saúde mental. Além disso, os dados serão compartilhados com prefeituras para que ajustem ações locais, como a oferta de abrigos e refeições. A iniciativa também contribui para metas da ONU de erradicação da pobreza extrema até 2030.
O custo do projeto é de R$ 12 milhões, recursos provenientes de emendas parlamentares destinadas à segurança social. Críticos destacam a necessidade de ampliação futura para outras capitais, como Brasília e Fortaleza, para que a política seja implementada em escala nacional. “Esse é um primeiro passo, mas a real transformação exige investimento contínuo”, afirmou o sociólogo João Silva, da Universidade de São Paulo.
Enquanto isso, a população em situação de rua segue enfrentando desafios cotidianos. De acordo com dados de 2022, mais de 150 mil brasileiros vivem em condição de vulnerabilidade, com 60% concentrados em apenas 10% das cidades. O censo busca, além de quantificar, humanizar esses números, identificando barreiras como violência, discriminação e falta de acesso à moradia.
Para garantir a credibilidade do processo, o IBGE assegura que a metodologia seguirá padrões internacionais e que os dados coletados serão mantidos em sigilo, conforme legislação. A iniciativa reflete uma tendência crescente no Brasil de integrar dados estatísticos a políticas sociais, visando maior eficácia e transparência.



