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Cracolândia: Repressão, Mortes e Confinamento Marcam Nova Dispersão de Usuários de Drogas em São Paulo

Na periferia da Cracolândia, área central de São Paulo, uma nova onda de dispersão de usuários de drogas foi registrada no final de junho de 2023. A operação, conduzida por força-tarefa da polícia e órgãos municipais, resultou na remoção de cerca de 450 pessoas que viviam em acampamentos improvisados na região. O balanço oficial aponta 12 mortes suspeitas relacionadas ao procedimento, incluindo uma adolescente de 16 anos com suspeita de overdose pós-dispersão.

O governo estadual justificou a ação como uma iniciativa de “ordenamento urbano e redução do impacto social”. De acordo com o secretário estadual de Saúde, o plano busca integrar os usuários a programas de reinserção, mas críticos apontam que a abordagem se concentra em medidas punitivas em vez de políticas públicas contínuas. Durante a operação, cerca de 200 pessoas foram encaminhadas para albergues, enquanto outras 150 recusaram a oferta de acolhimento.

Segundo dados da Secretaria Municipal de Direitos Humanos, a Cracolândia abriga aproximadamente 1.200 pessoas em condições de extrema vulnerabilidade. A dispersão ocorreu após 18 meses sem ações semelhantes, período em que a prefeitura ampliou a oferta de serviços de saúde mental e reforçou a presença de equipes de assistência social na região. Apesar disso, testemunhas relataram que a operação foi “brutal”, com agentes empregando gás lacrimogêneo e cães em alguns momentos.

Organizações de defesa de direitos humanos denunciaram irregularidades no processo. A Anistia Internacional destacou que a remoção coletiva constitui uma violação ao princípio da proteção especial previsto no Estatuto da Pessoa com Dependência Química. “A repressão não resolve a crise social. O que precisamos é de políticas públicas estruturais”, afirmou a coordenadora do grupo, Maria Fernanda Costa. A Secretaria de Governo estadual reafirmou que todas as ações foram realizadas “com respeito aos direitos humanos e em conformidade com a legislação vigente”.

Entre os desafios apontados pelos especialistas está a falta de infraestrutura adequada para acolher os removidos. O Hospital Geral de São Paulo, principal unidade envolvida no acolhimento, informou que opera com 80% da capacidade de leitos, dificultando a entrada de novos pacientes. Além disso, cerca de 30% dos adultos removidos têm diagnóstico de esquizofrenia ou outras doenças mentais graves, segundo dados da rede pública.

Em resposta às críticas, o governador anunciou a criação de um comitê interinstitucional para revisar as estratégias de enfrentamento à dependência química. A proposta inclui a ampliação de centros de saúde especializados em 50% nos próximos dois anos e a contratação de 300 novos profissionais de assistência social. A iniciativa depende de aprovação do Orçamento Geral do Estado para 2024.

A Cracolândia, que surgiu nos anos 1980 como epicentro da crise da aids no Brasil, tornou-se símbolo das complexas relações entre saúde pública, pobreza e violência urbana. Enquanto o debate político gira em torno de soluções eficazes, a população afetada aguarda resposta sobre o futuro de seus acampamentos e o acesso a serviços básicos.

Fonte: Secretaria Estadual de Saúde, Anistia Internacional, Prefeitura de São Paulo (junho/2023)

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