
**
Brasília — O governo brasileiro manifestou, nesta terça-feira, oposição às medidas recentemente anunciadas pela União Europeia (UE) que aumentam impostos antidumping sobre aços produzidos no país. A decisão, aprovada pelo órgão europeu de comércio, visa limitar uma suposta inundação do mercado europeu com produtos siderúrgicos nacionais. O Ministério das Relações Exteriores e o Ministério da Economia rejeitaram a justificativa, chamando-a de “desproporcional” e exigindo revisão das restrições.
De acordo com a UE, os novos direitos de 20% a 25% sobre aços planos e longos do Brasil foram adotados após investigações que apontaram práticas comerciais “não leais”. A entidade afirma que fabricantes europeus enfrentam desvantagens devido à competitividade dos preços brasileiros, ligada a subsídios estatais e baixos custos de produção. O Brasil rebate a acusação, destacando que sua indústria siderúrgica opera sob regras de mercado e não conta com protecionismo estatal.
O presidente do Instituto Aço Brasil, Pedro Guerra, afirmou que as restrições europeias impactarão negativamente empresas nacionais exportadoras, que respondem por 30% da produção siderúrgica brasileira. “A UE está usando instrumentos comerciais para impor barreiras, ignorando os protocolos da Organização Mundial do Comércio (OMC)”, disse. O governo brasileiro informou que protocolará recurso formal perante a OMC nas próximas semanas.
Histórico de conflitos entre as duas economias revela tensões recorrentes na área comercial. Em 2021, a UE já havia imposto tarifas semelhantes a produtos brasileiros, que foram suspensas após negociações. A atual gestão do Brasil, no entanto, adota uma postura mais firme, com destaque para a defesa de interesses industriais em âmbito multilateral.
Fontes diplomáticas revelaram que embaixadores brasileiros estão em contato com representantes da UE para buscar soluções. Entre as propostas discutidas, a criação de um mecanismo de compensação financeira às empresas siderúrgicas brasileiras afetadas. “Não podemos aceitar unilateralidade”, afirmou o secretário de Comércio Exterior, Luís Augusto Campos.
Para economistas, a disputa reflete uma nova fase de protecionismo global, com blocos econômicos adotando medidas pautadas em interesses setoriais. “Essa tendência coloca em risco acordos comerciais multilaterais”, alertou a professora de economia internacional da FGV, Ana Lúcia Ribeiro.
O setor siderúrgico brasileiro, que emprega mais de 300 mil pessoas, enfrenta desafios adicionais por conta da crise hídrica que afeta hidrelétricas, aumentando custos de energia. Analistas apontam que a combinação de restrições externas e fatores internos pode levar a cortes de produção em até 15% nos próximos meses.
Enquanto isso, a UE mantém posição firme, defendendo a necessidade de proteger seus produtores. “As decisões são tomadas com base em processos rigorosos e transparência”, afirmou porta-voz da Comissão Europeia em comunicado. O órgão reiterou disposição para diálogo, mas não ofereceu prazos para revisão das medidas.



