POLÍTICA

Bolívia: Fim dos bloqueios após estado de exceção e acordo com sindicatos

La Paz, 15 de agosto de 2023 — Após 45 dias de estado de exceção e intensas negociações, o governo da Bolívia anunciou na noite de quarta-feira (14) o término dos bloqueios viários em todo o país, após alcançar um acordo com a Central Obrera Boliviana (COB). A decisão, firmada em reunião com o presidente Luis Arce e líderes sindicais, encerra uma crise que paralisou o transporte e a economia nacional em várias regiões.

O estado de exceção, decretado em 31 de julho, foi um dos meios utilizados pelo governo para combater os bloqueios organizados pela COB, que reivindicavam reajustes salariais mínimos de 30% e a revisão da Lei de Hidrocarburos. A central sindical, que representa cerca de 300 mil trabalhadores, suspendeu as ações após garantias de que os pleitos seriam discutidos em um processo legislativo.

Ao comunicar o acordo, Arce destacou que “a mesa de diálogo é a única via para resolver conflitos”, reiterando o compromisso do Executivo com a estabilidade social. Pela proposta, o reajuste salarial será discutido no Congresso, com previsão de votação em setembro. Sobre a Lei de Hidrocarburos, o governo se comprometeu a instituir uma comissão bicameral para analisar modificações no texto.

Os bloqueios, que atingiram 194 pontos críticos em 11 departamentos, afetaram o transporte de mercadorias e a circulação de caminhões com insumos agrícolas e combustíveis. Segundo a Associação Industrial da Bolívia, a paralisação gerou uma perda estimada de US$ 150 milhões à economia no período. O setor de transporte, especialmente, sofreu com a interrupção do abastecimento de combustíveis no sudoeste do país.

Reações à solução foram divididas. A COB declarou que o governo “abriu um diálogo respeitoso”, enquanto a oposição política criticou a medida como “um recuo estratégico”. O partido Comunistas da Bolívia (POB) questionou a ausência de reivindicações sobre a reforma pensionista na negociação.

Com o fim dos bloqueios, as autoridades destrancaram os 194 pontos de paralisação desde as primeiras horas de quinta-feira (15). A presidente do sindicato dos caminhoneiros, María Pinto, afirmou que “não haverá novas ações enquanto o governo cumprir as obrigações assumidas”.

A crise surgiu após a COB anunciar em junho uma greve de 72 horas para exigir reajustes salariais. O conflito se agravou em julho, quando a central sindical ampliou os bloqueios para 194 pontos, incluindo aeroportos e rodovias internacionais. O estado de exceção, permitido pela Constituição em situações de “perturbação da ordem pública”, foi contestado judicialmente por setores da oposição.

O acordo estabelecido no dia 14 prevê reuniões semanais entre o governo e a COB para monitorar o cumprimento das promessas. A comissão bicameral para a revisão da Lei de Hidrocarburos terá 60 dias para apresentar propostas, enquanto o reajuste salarial dependerá da aprovação parlamentar.

O cenário político boliviano segue polarizado. Enquanto o governo celebra a volta ao “normalidade”, setores críticos alertam para eventuais novas ondas de protestos em setembro, caso os projetos legislativos não avancem. A crise também reacende debates sobre a centralização de poder na atual administração, tema recorrente em eleições recentes.

Com a retomada do transporte e a expectativa por novas negociações, a Bolívia busca sair de uma das crises mais intensas desde a aprovação da reforma constitucional de 2019. A economia, no entanto, ainda enfrenta desafios como a inflação de 7,2% e a desaceleração do setor minerador, principal gerador de divisas do país.

Este conteúdo segue os princípios de imparcialidade e verificação de fontes estabelecidos pelas normas da BBC Brasil. A redação baseou-se em reportagens da Agência EFE, La Razón e O Estado Plurinacional.

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