
O Rio Tietê, que atravessa a capital paulista e o interior do estado, não possui trecho livre de contaminação, conforme revela relatório divulgado pela organização não governamental SOS Mata Atlântica. O estudo, realizado em parceria com instituições ambientais, aponta que poluentes industriais, esgotos domésticos e resíduos químicos continuam desafogando o rio, prejudicando a vida aquática e a saúde pública.
O Tietê, considerado a maior bacia hidrográfica do estado, enfrenta problemas desde a década de 1970, quando a rápida urbanização de São Paulo intensificou o lançamento de resíduos sem tratamento. A SOS Mata Atlântica destacou que, apesar de esforços recentes para recuperação, como a implantação de estações de tratamento de esgoto, a contaminação persiste em níveis críticos em todos os trechos analisados.
A pesquisa incluiu medições de parâmetros como pH, oxigênio dissolvido, concentração de metais pesados (como chumbo e mercúrio) e níveis de DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio). Resultados indicaram que 98% dos trechos do rio excedem os limites aceitáveis para vida de peixes e outros organismos aquáticos, segundo padrões da legislação ambiental brasileira.
O coordenador do projeto da SOS Mata Atlântica, João Silva, explicou que a contaminação se deve à ausência de fiscalização rigorosa de indústrias e ao esgoto doméstico mal tratado. “Mesmo com obras de infraestrutura, há falhas na gestão municipal e estadual. Ações emergenciais são insuficientes para reverter a crise ambiental”, afirmou em coletiva de imprensa.
O governo do Estado anunciou, em 2023, um plano de R$ 500 milhões para ampliar estações de tratamento de esgoto na bacia do Tietê. No entanto, críticos destacam que a iniciativa não aborda o problema de poluentes industriais, que contribuem com 40% da carga contaminante, segundo dados do Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental).
Comunidades ribeirinhas, que dependem do rio para pesca e irrigação, relatam aumento de doenças respiratórias e cutâneas devido à contaminação. “O cheiro desagradável e o lixo flutuando são evidências do que está acontecendo. Precisamos de ações concretas”, disse uma moradora do districto de Perus, em São Paulo.
Organizações ambientais reforçam a necessidade de regulamentações mais rígidas e incentivos para indústrias adotarem tecnologias verdes. A SOS Mata Atlântica também propõe a criação de zonas de proteção ecológica ao longo do rio, com proibição de atividades industriais em áreas críticas.
Apesar dos desafios, especialistas destacam que a recuperação do Tietê é possível. O caso do Rio Pinheiros, outro da bacia paulista, demonstrou que intervenções combinadas (tratamento de esgoto + fiscalização de indústrias) podem reduzir a contaminação em até 70%, segundo estudo da USP.
O relatório da SOS Mata Atlântica será apresentado ao Congresso Nacional para discussão de políticas públicas. A organização também planeja campanhas de conscientização e parcerias com ONGs internacionais para mobilizar recursos adicionais.
O Rio Tietê, que nasce no município de Bocaina e deságua no Rio Paraná, é vital para o equilíbrio ecológico da região. Sua preservação demanda esforços conjuntos de governos, setor produtivo e sociedade civil.



