
No último sábado, avenida Paulista em São Paulo foi palco de um dos maiores protestos da nova década, com estimativas de 15 mil manifestantes exigindo o fim da escala 6×1, modelo de trabalho que impõe seis dias de atividade consecutiva seguidos a um dia de folga. A mobilização, organizada por sindicatos de diversas categorias, contou com a participação de trabalhadores da indústria, setor de serviços e autônomos.
Os manifestantes marcharam do Museu da Língua Portuguesa ao Parque do Ibirapuera, onde ocorreu um ato central com discursos de representantes sindicais e parlamentares. Entre os cartazes, frases como “6 dias não são suficientes” e “Vamos viver, não apenas trabalhar” destacavam a reivindicação principal: a legalização da escala 5×2, que garante dois dias de folga semanais.
O modelo 6×1, adotado por empresas de pequeno e médio porte, tem gerado controvérsias desde 2021, quando a reforma trabalhista da gestão Bolsonaro ampliou a flexibilidade de jornadas. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIESSE), 12% dos trabalhadores brasileiros estão em regimes semanais de seis dias, concentrando-se em setores como indústria de transformação e serviços de logística.
Representantes sindicais destacaram os impactos na saúde pública. “Estudos da Fundação Seade mostram que trabalhadores em escala 6×1 têm 35% mais risco de doenças cardíacas”, afirmou Maria Helena, coordenadora do Sindicato dos Metalúrgicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertou sobre o aumento de estresse crônico em países com jornadas contínuas superiores a 60 horas semanais.
Empresas como a Nestlé e a Siemens anunciaram recentemente a transição para o modelo 5×2, citando ganhos de produtividade. No entanto, sindicalistas argumentam que mais de 60% das empresas de médio porte preferem a escala 6×1 por razões econômicas, apesar de restrições do Ministério do Trabalho para evitar horas extras não compensadas.
O governo federal não se manifestou oficialmente sobre o protesto. O deputado federal Luiz Antonio (PT), relator de uma PEC que tramita na Câmara, afirmou que votações podem ocorrer no segundo semestre. “Precisamos de um marco que assegure direitos mínimos, independente da flexibilidade”, destacou o parlamentar.
Entre os desafios apontados pelos organizadores está a fiscalização do trabalho. O Ministério Público do Trabalho (MPT) informou que aumentará as inspeções em empresas que adotam o regime 6×1, após denúncias de irregularidades em 23 municípios paulistas no primeiro semestre.
O movimento segue em articulação com entidades internacionais, como a Confederação Sindical Internacional (CSI), que divulgou nota de solidariedade às lutas pelo equilíbrio vida-trabalho na América Latina. Próximos encontros estão previstos para julho, com possibilidade de greve nacional.
Apesar da pressão, especialistas alertam sobre o risco de inconstitucionalidade. “Qualquer mudança precisa passar por consulta prévia aos trabalhadores e não pode reduzir salário real”, explicou o advogado trabalhista Carlos Eduardo Ribeiro. A discussão, que une saúde pública, direitos laborais e economia, mantém a agenda social em alta nos debates legislativos.
