ECONOMIA

Dólar sobe para R$ 5,18 e atinge maior valor desde fim de março

Na manhã desta quinta-feira (4), o dólar comercial atingiu a cotação de R$ 5,18, seu maior valor desde o final de março, pressionado pela combinação de fatores como a alta do petróleo no cenário internacional, a volatilidade no mercado financeiro global e a desaceleração da economia brasileira. A moeda norte-americana acumula alta de 2,3% em relação ao fechamento da semana anterior, refletindo a busca por ativos considerados mais seguros por investidores.

Segundo dados do Banco Central, a apreciação do dólar está diretamente ligada à menor confiança dos investidores em relação ao cenário doméstico. A inflação persistente, a elevada taxa de juros do Banco Central e a instabilidade política são apontadas como os principais fatores que desencadearam a alta. Analistas também destacam o impacto da guerra comercial entre Estados Unidos e China, que afeta a demanda por commodities, setor fundamental para a economia brasileira.

O presidente do Instituto de Economia da Universidade de Brasília (UnB), professor João Batista, explicou em entrevista ao G1 que “a valorização do dólar é um reflexo natural da percepção de risco por parte do mercado. Quando há incertezas sobre a estabilidade do país, o capital tende a migrar para moedas mais líquidas, como o dólar”. Ele acrescentou que a alta pode impactar diretamente o orçamento familiar, elevando o custo de importações e produtos que dependem do câmbio, como eletrônicos e medicamentos.

No setor produtivo, a alta do dólar gera divisões. Empresas exportadoras celebram a cotação elevada, já que recebem mais reais por cada dólar obtido nas vendas para o exterior. Por outro lado, indústrias importadoras e consumidores finais enfrentam aumento nos preços de bens e serviços. “A cada 10% de alta do dólar, o preço final de produtos importados sobe em torno de 5%, impactando a competitividade de setores como automotivo e farmacêutico”, afirma a economista Maria Clara Ferreira, especialista em relações comerciais.

O Banco Central divulgou nota oficial afirmando que “monitora de perto a evolução do câmbio e está preparado para adotar medidas no mercado para assegurar a estabilidade”. Em sua ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC destacou que a taxa de juros, atualmente em 13,75% ao ano, continua como instrumento-chave para conter a pressão inflacionária, o que pode manter o câmbio pressionado nos próximos meses.

Na bolsa de valores, os investidores reagem com cautela. O índice Bovespa opera em ligeira queda, refletindo a aversão ao risco no mercado. Ações de empresas exportadoras estão entre as poucas a subirem, enquanto setores sensíveis à economia doméstica, como varejo e construção civil, recuam. “O mercado está descontando a possibilidade de novas intervenções do BC, mas também se prepara para um cenário de ajuste prolongado”, aponta o analista financeiro Carlos Eduardo Mendes.

Para a semana que vem, economistas ouvidos pela Agência Reuters projetam uma cotação do dólar em torno de R$ 5,25, considerando os riscos geopolíticos e a incerteza sobre as eleições presidenciais brasileiras. A pesquisa divulgada ontem pelo Instituto Datafolha mostra que a polarização eleitoral pode agravar a volatilidade no câmbio, caso não haja avanços significativos na agenda de reformas estruturais.

A alta do dólar também impacta o turismo. Destinos como Miami e Nova York registraram aumento de 15% nas buscas por pacotes de viagem, segundo a Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav). “Para o viajante comum, a cotação elevada pode ser um incentivo para planejar viagens internacionais, mas é preciso atenção às taxas de conversão e aos custos adicionais”, alerta a presidente da Abav, Ana Paula Ferreira.

Em meio a esse cenário, o governo federal reitera o compromisso com políticas de estímulo à economia. “Temos um plano de ação para conter a inflação, atrair investimentos e recuperar a confiança do mercado”, afirmou o ministro da Economia, Paulo Guedes, em coletiva na terça-feira. O governo também anunciou medidas para fortalecer o agronegócio, setor que representa 15% das exportações brasileiras e é um dos grandes beneficiários da cotação favorável do dólar.

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