
Governos estaduais do Nordeste articulam uma agenda para apresentar a Caatinga como uma região com potencial para receber investimentos em restauração ambiental, segurança hídrica e atividades econômicas de baixo impacto. A iniciativa está relacionada à preparação para a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, conhecida como COP17 da Desertificação.
A conferência está prevista para ocorrer em Ulan Bator, na Mongólia, em 2026. O encontro deverá reunir representantes de governos, organismos internacionais, instituições financeiras, empresas e organizações da sociedade civil para discutir o avanço da desertificação, a degradação do solo e os efeitos das mudanças climáticas sobre as populações rurais.
Na região Nordeste, a Caatinga é o principal foco desse debate. O bioma ocupa cerca de 10% do território brasileiro e está presente em todos os estados nordestinos, além de uma parcela de Minas Gerais. Apesar de sua importância ecológica, a área enfrenta desmatamento, perda de cobertura vegetal, erosão, escassez de água e aumento da irregularidade das chuvas.
A estratégia dos estados é mostrar que a conservação da Caatinga pode estar associada a oportunidades econômicas. Entre os setores apontados estão a produção de energia solar e eólica, o manejo sustentável de espécies nativas, a recuperação de áreas degradadas, o turismo de natureza e cadeias produtivas relacionadas a frutas, fibras, sementes e produtos da sociobiodiversidade.
Outro eixo discutido é a ampliação de projetos de restauração. A recuperação da vegetação nativa pode contribuir para reduzir a erosão, melhorar a retenção de água no solo e aumentar a capacidade de adaptação das comunidades rurais aos períodos de seca. Para os governos, a obtenção de recursos externos será necessária para ampliar ações que hoje dependem de programas públicos e de iniciativas pontuais.
A agenda também inclui mecanismos de financiamento climático, fundos internacionais e projetos vinculados ao mercado de carbono. Esses instrumentos, no entanto, exigem critérios de medição, transparência e comprovação dos resultados ambientais. Especialistas apontam que os projetos precisam assegurar a participação das comunidades locais e evitar que populações tradicionais sejam excluídas dos benefícios econômicos.
A segurança hídrica é outro tema central. A irregularidade das precipitações e a ocorrência de secas prolongadas afetam o abastecimento humano, a produção agrícola e a criação de animais. Investimentos em cisternas, reuso de água, tecnologias de convivência com o semiárido e recuperação de nascentes são considerados fundamentais para reduzir a vulnerabilidade da população.
Os estados também pretendem fortalecer a cooperação regional. A atuação conjunta pode facilitar a apresentação de projetos integrados e aumentar a capacidade de negociação com bancos de desenvolvimento, fundos ambientais e investidores privados. A expectativa é transformar demandas locais em propostas estruturadas, com metas, estimativas de custo e indicadores de impacto.
A participação brasileira na COP17 deverá ocorrer em um momento de maior atenção internacional para a degradação dos solos. Dados da Convenção da ONU de Combate à Desertificação indicam que a perda de terras produtivas afeta a segurança alimentar, a disponibilidade de água e a renda de milhões de pessoas em diferentes regiões do mundo.
Para a Caatinga, o desafio será demonstrar que a proteção do bioma não representa apenas uma obrigação ambiental, mas também uma oportunidade de desenvolvimento. A definição dos projetos, das fontes de financiamento e dos mecanismos de acompanhamento será decisiva para que a agenda apresentada na COP17 resulte em ações permanentes no Nordeste.



